Sítio em demo_lições constantes.
Escrito por Descompanhia Teatral
Relações entre o poema épico e o processo de investigação e pesquisa dos atores no Primeiro Troço “Navalha na Carne” pela Descompan(h)ia Teatral

por Carlos Alberto Moreno



1. O caminho do herói/ o caminho do ator

Uma grande aventura. Um caminho incerto e profundo. O herói Odisseu, ou Ulisses na sua forma clássica tradicional; e o objetivo, o ponto de partida, que é voltar para a sua terra natal, para a sua família. Mas o que faz de Odisséia uma obra clássica e de leitura obrigatória é o caminho, o processo que conduz o mortal Ulisses até a realização daquilo que em princípio parece simples como o ato de voltar para casa.
Esse é o ator: o nômade, o desnaturalizador. Aquele que está fora de casa, um aventureiro errante que vai pelos atalhos e desvios, contra a corrente, pesquisador do mundo e de si próprio.
Façamos antes algumas deliberações.
O que veio antes para Ulisses? A guerra. E o que há depois da guerra? A desesperança. Então qual a natureza existente num homem que acaba de voltar de uma guerra que durara dez anos?
Não se espera nada depois da destruição causada por uma guerra. Ainda mais se pensarmos no grandioso evento que foi a guerra de Tróia. Sendo assim, podemos enunciar o primeiro ato heróico de Ulisses como sendo a pura e simples resistência. Não contra algo externo a ele mesmo, pelo contrário, a resistência de Ulisses diante daquilo que há dentro dele na sua condição de ser humano, a sua própria fragilidade.
E o que faz de Ulisses um herói é justamente o fato de ele ter se mantido humano diante dos perigos e desvios e não ter caído na tentação nem de ser animal nem de ser deus.
A partir de alguns desses pontos podemos traçar um paralelo entre o caminho de Ulisses e o caminho dos atores no processo de investigação e pesquisa dentro da Descompan(h)ia Teatral, junto com seus percalços, desvios, descobertas e tudo mais que está contido nessa aventura.
Até porque foi escolhido o texto Navalha na Carne do dramaturgo Plínio Marcos pelo fato de vazar dele personagens e pessoas desesperançosas, que assim como nós da Descompan(h)ia também temos a sensação, cada um a seu modo, de uma navalha que perfura a própria carne.

É de suma importância frisar que o processo de criação desses atores/ investigadores se dá através do depoimento pessoal, parte-se das questões particulares se utilizando da ficção para tentar tocar o universal. A universalidade contida na experiência real.

Universal: Segundo a lógica do filósofo Aristóteles, o universal é uma forma única (uno) contida no múltiplo. Independentemente do seu conceito e da sua forma individual concreta, é aquilo que está no mundo, a essência das coisas.

A experiência real, por sua vez, só se caracteriza por experiência por que é algo sentido, algo realmente transformador e modificador. Não de forma clara e sistemática, mas num exercício constante dos atores e do encenador dentro da Descompan(h)ia que é observar o invisível entre as relações, e se observar junto, fundo, de verdade. Procedimento necessário para que o artista saiba utilizar o material humano que vaza das relações e o coloque em cena.

Desde que entrei nesse processo me vi mergulhado num amontoado de questões complexas e difíceis de ver, de tocar, de aceitar. Ao menos para mim.
Nas primeiras indicações que recebi fui aconselhado a observar tudo e todos, as relações visíveis e invisíveis e toda a sua complexidade (sem julgamentos morais), inclusive me observando como observador disso tudo. Todas as reações e sensações de quem está dentro e de quem está fora. Tudo ao mesmo tempo.
Mergulhado nesse violento mar do Poséidon e amparado pelos conselhos de Atena, assim como Ulisses vou pouco a pouco construindo o meu próprio processo.

Pesquisa realizada em Abril de 2009
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